Quem você é, de verdade?

Outro dia, a filósofa Marcia Tiburi usou uma expressão que foi na mosca. Ela disse que a televisão nos oferece uma “pretensão de realidade”.

Ela, a Marcia apresentadora do “Saia Justa”, não é a mesma Marcia que cozinha, vai ao shopping, dá aulas. A Marcia da TV imita a Marcia cotidiana. Não há má-fé nisso, é apenas um ajuste de postura, uma adequação ao ambiente. Marcia, que mantém seus dois pés no chão, sabe bem a hora de incorporar o personagem e a hora de despi-lo para tocar sua vida sem holofotes. Acontece conosco também: que não “incorpora um personagem” ao responder uma entrevista de emprego, ao ser apresentado para um possível pretendente, ao posar para uma foto? Nossa autenticidade está ali, mas acrescida de um certo empenho em criar uma boa impressão.

No entanto, são poucas as pessoas que conseguem definir bem a fronteira entre uma imagem construída para consumo externo e uma vida legítima, sem roteiro, comprometida apenas com os próprios desejos e angústias. A indústria do entretenimento cresceu tanto que essa vida “legítima” está se transformando num teatro de variedades onde não há mais platéia: estão todos no palco, vivendo personagens.

A adolescente de 14 anos está interpretando uma mulher de 25, e acreditando tanto no papel que já nem consegue mais distinguir a farsa – e nem voltar à inocência que ainda tem e não sabe.

Mulheres de 50 estão interpretando garotas de 18. Meninos de classe média estão interpretando decadentes vilões de cinema. Mulheres românticas estão interpretando piranhas de filme pornô.

Pessoas com qualidades e defeitos estão interpretando pessoas só com qualidades. Poucos toleram ser falíveis, pois estão se espelhando num mundo aparentemente sem falhas. Com isso, pretendem passar adiante uma versão melhorada deles próprios, sem perceber que ela pode constituir-se em uma versão mais arrogante, auto-suficiente, egoísta e bruta. Estamos acreditando mais no que recebemos da mídia do que nos nossos sentimentos genuínos. Quem é você, de verdade? Muitos teriam dificuldade em responder, porque a verdade está sendo substituída por projeções. Seria mais fácil responder: que mentira você pensa que é? Pessoas pensam que são mais especiais do que as outras, que são mais sábias, que não erram, que são refratáveis ao sofrimento, que agradam o tempo inteiro, que têm todas as respostas. Pensam que isso existe.

Nossos lares estão cada vez mais cenográficos, nossas atitudes, cada vez mais previsíveis, nosso visual, cada vez mais padronizado, e nossas dificuldades afetivas, cada vez mais parecidas com tramas de novela, em que tudo é complicado e nada se resolve antes do capítulo final. Nossa insistência em seguir modelos de comportamento estão, sem que notemos, nos condenando a uma prisão. Nosso crime: falsidade ideológica.

A modéstia e a simplicidade, de tão verdadeiras, passaram à categoria de qualidades indesejáveis. Não são consideradas pró-ativas, não são desencadeadoras de sucesso. Mas que sucesso é esse que se almeja? Acorde: as pessoas mais talentosas são, em sua maioria, as mais modestas, autênticas e sem pose. Simplismente não levam o personagem tão a sério.

Martha Medeiros – 07/08/2007


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