Fantasia e idealização

Fantasia e idealização são considerados sinônimos, mas diferem entre si. Fantasia, ninguém espera que se realize. É uma viagem do imaginário. Tira nossos pés do chão e nos faz pisar num palco, onde representamos novos e inusitados papéis. Na fantasia, estamos fazendo um cruzeiro pelas Bahamas e encontramos George Clooney dando sopa no convés. Na fantasia, somos uma famosa cantora que vive em uma mansão em Malibu e tem agendados vários concertos pelo mundo. Na fantasia, damos entrevista para Marilia Gabriela, somos a capa da Playboy, participamos de um menage-à-trois, ganhamos o Nobel de economia, moramos num loft no Soho, viramos a cabeça do entregador de pizza. Nada disso é projeto de vida. São apenas divagações para distrair a mente, válvulas de escape de um mundo deveras convencional, um alucinógeno sem contraindicações.

A idealização, sim, pode ser perigosa. O idealista costuma ser um sujeito que acredita em utopias e não mede esforços para transformar o mundo num lugar melhor pra se viver. Até aí, nenhum problema. A coisa vira patologia quando ele começa a idealizar o próprio destino, tentando prever cada diálogo e cada cena a ser vivida, obstinado em fazer com que as coisas aconteçam exatamente como ele sonhou.

Esse idealista aceita um emprego achando que vai salvar a empresa onde trabalha. Ele vai triplicar o faturamento, será líder da equipe e acabará virando consultor da diretoria, mesmo tendo sido contratado para ser assistente do almoxarifado. Poderia, com menos pressa, alcançar suas metas, não fosse candidato potencial para cair das nuvens.

No amor, a idealização causa ainda mais estrago. Será um amor de novela: ele se consumirá por mim, ela retribuirá todos os meus olhares, ele será forte e me protegerá, ela será frágil e me deixará tomar as decisões, ele nunca vai perder o emprego, ela nunca vai ganhar peso, ele nunca olhará para outra, ela sempre vai dizer sim. E a vida real minando esse conto-de-fada.

A infância, povoada de super-heróis, incentiva nossas idealizações e fantasias. Com o tempo, porém, as fantasias se sofisticam e as idealizações são dispensadas. Maturidade, é como se chama esse jogo. Só perde quem inverte as regras: dispensa a fantasia e passa a cultivar a frustração.

Martha Medeiros

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: