Desaprendendo o amor…

Assistir ao virar de páginas do pesado livro sem desprender atenção, e sim vida.

Ignorância da surpresa dolorosa de um acontecimento previsto. Desdenhei o acaso certo e previsível. Desdenhei a dor e o sofrimento. Desdenhei a vida… o nada, a ausência se significados e sentidos… um vazio sem nome, de onde despenco numa queda infinita. Peço a Deus para voar, mas ele se mantém imóvel, calado. Invade-me o silêncio, por entre brindes e comemorações. Silêncio que busca, quer compreender o incompreensível sem se envolver, doar-se… compreender com olhos alheios e distantes. Mas o vácuo da alma suga, aperta, sufoca… e o nada é visto com olhos de ninguém.

O perder-se da doce entrega que se torna amarga na obrigação de se encontrar. Doloroso resgate fragmentado por nunca se achar inteiro… pedaços, cacos que demoram em se remontar… desorganizadamente, numa nova ordem sempre distinta da anterior. Caótica e indecifrável reconstrução.

Escrevo para ignorar o que acontece lá. Escrevo para esquecer as conseqüências que acontecem aqui… bem dentro, bem fundo, onde minhas garras de bicho sem qualquer virtude não alcançam. Escrevo para sentir com fome de mim o gosto de sangue na boca. Tornar o visível real no invisível da minha verdade inventada, encontrando o conforto de imaginar, porque agir eu não sei, não quero, dói… e minhas palavras passariam a ter pontas, espinhos, farpas, ferrões com alvo certeiro: minha crescente angústia.

Desprezo pelo resto de mim: saudade. Saudade desmedida de um pôr-do-sol não visto. Saudade da solidão acompanhada, da ausência consentida. Desprezo o que sou, na tentativa de criar a idéia de que amar, viver deva ser bom. Desprezo que cresce feito capim, que ao me dominar por inteira torna-me a metade verdadeira de uma meia verdade. Aquele visível referido e que nenhuma cegueira pode ocultar. Dor… prisioneira minha. Eu… escrava de minhas próprias emoções, das minhas lembranças que assombram, meus eternos fantasmas… vulgar, numa total ignorância consciente… encontro-me na linha tênue que separa  o real do verdadeiro… entre o abismo do poço e o infinito dos céus. Em qualquer lugar, em lugar nenhum, onde ninguém vê, ninguém se importa… nos cinco eternos minutos de Vinícius… no limite, onde desaprendo, nego e desprezo por toda minha vida o amor de Drummond.

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