The mind is its own place…

Janeiro 24, 2008

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 5:58 pm
Que posso fazer se me escolheu a estrela
 Para ser um relâmpago, e se o espinho
Me conduziu à dor de alguns que são muitos?
O que fazer se cada movimento
e minha mão me aproximou da rosa?
Pablo Neruda

Novembro 22, 2007

Gosto quando te calas

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:49 am

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade. 

 
Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:41 am

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Fome

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:40 am

Tenho fome da tua boca, da tua voz, teus cabelos
e pelas ruas vou sem me nutrir, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
procuro o líquido som de teus pés pelo dia.
Faminto estou de teu sorriso resvelado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como intacta amêndoa.

Pablo Neruda

Talvez

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:36 am

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás…Seremos…

Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:27 am

Saberás que não te amo e que te amo
porquanto de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade fria.

Eu te amo para começar a te amar,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de te amar nunca:
por isso mesmo é que ainda não te amo.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos a chave da ventura
e um incerto destino desditado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isto te amo quando não te amo
e por isto te amo quando te amo.

Pablo Neruda

A Noite na Ilha

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:25 am

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora – pão,
vinho, amor e cólera – te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:12 am

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:09 am

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito…”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda

Novembro 20, 2007

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 1:53 am

Amo o pedaço de terra que és tu,
Porque das campinas planetárias
Outra estrela não tenho.Tu repetes
A multiplicação do universo.
Teus amplos olhos são luz que tenho
Das constelações derrotadas,
Tua pele palpita como os caminhos.
Que percorre na chuva o meteoro.
De tanta luz foram para mim teus quadris,
De todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
De tanta luz ardente como o mel na sombra
Teu corpo queimado por longos raios rubros,
E assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
Pequena e planetária, pomba e geografia.

Pablo Neruda

Novembro 19, 2007

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 4:00 pm

Já és minha,repousa com teu
Sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalho, devem
dormir agora.

Gira noite sobre suas
Invisíveis rodas, e junto a mim és
Pura como o âmbar dormindo.

Nenhum mais amor, dorme
Com meus sonhos…
Irás, iremos juntos pelas
Águas do tempo.

Nenhuma viajará pela
Sombra só tu,
Sempre viva, sempre sol…
Sempre lua…

Já tuas mãos abriram os punhos
Delicados e deixaram cair
Sem rumo…

Teus olhos se fecharam como
Duas asas cinzas, enquanto
Eu sigo a água que me leva.

A noite…O mundo… O vento
Enovelam meu destino, e já
Não sou sem ti, senão

Apenas teu sonho…Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 3:57 pm

Antes de amar-te, amor, nada era meu
vacilei pelas ruas e as coisas
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava

e conheci salões cinzentos
túneis habitados pela lua
hangares cruéis que se despediam
perguntas que insistiam na areia

tudo estava vazio, morto e mudo
caído, abandonado e decaído
tudo era inalienavelmente alheio

tudo era dos outros e de ninguém
até que sua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono

Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 12:53 pm

Virás comigo, como, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.

Repeti: vem comigo, como se morresse,
E ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
Ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!

Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
Dor, amor, a fúria do vinho encarcerado

que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos ,de pedras e queimadura.

 

Pablo Neruda

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