The mind is its own place…

Novembro 27, 2007

Erro

Arquivado em: Machado de Assis, Poesia — Daniela @ 1:08 am

Erro é teu. Amei-te um dia
com esse amor passageiro
que nasce na fantasia
e não chega ao coração;
não foi amor, foi apenas
uma ligeira impressão;
um querer indiferente,
em tua presença, vivo,
morto, se estavas ausente;
e, se ora me vês esquivo,
se, como outrora, não vês
meus incensos de poeta
ir eu queimar a teus pés
é que — como obra de um dia,
passou-me esta fantasia.
para eu amar-te, devias
outra ser e não como eras.
tuas frívolas quimeras,
teu vão amor de ti mesma.
essa pêndula gelada
que chamavas coração,
eram bem fracos liames
para que a alma enamorada
me conseguissem prender;
foram baldados tentames,
saiu contra ti o azar,
e, embora pouca, perdeste
a glória de me arrastar
ao teu carro… vãs quimeras!
para eu amar-te devias
outra ser e não como eras…

Machado de Assis

Círculos Vicioso

Arquivado em: Machado de Assis, Poesia — Daniela @ 1:06 am

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
“Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

“Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

“Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

Machado de Assis

Amor – pois que é palavra essencial

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 1:00 am

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então, a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade

Ainda que mal

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 12:58 am

Ainda que mal
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entendas,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda, assim, pergunto:
me amas?
E me queimando em teu seio,
me salvo e me dano…
… de amor.

Carlos Drummond de Andrade

Enumeração

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 12:56 am

Velhos amores incompletos no gelo seco do passado,
Velhos furores demenciais esmigalhados no mutismo de demônios crepusculares,
Velhas traições a doer sempre na anestesia do presente,
Velhas jogadas de prazer sem a menor deleitação,
Velhos signos de santidade atravessando a selva negra como cervos escorraçados,
Velhos gozos de torva índole,
Velhas volúpias estagnadas,
Velhos braços e mãos e pés em transtornada oscilação logo detida, velhos choros que não puderam ser chorados,
Velhos isso, velhos aquiloss dos quais sequer me lembro mais…

Carlos Drummond de Andrade

A Destruição

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 12:51 am

Os amantes se amam cruelmente
E com se amarem tanto, não se vêem
Um beija o outro refletido
Dois amantes o que são?

Amantes são mentes estragadas
Pelo mimo do amor e e não percebem
Quando se pulverizam no enlaçar-se
E com o q era mundo volve o nada

Nada, ninguém. Amor. Puro fantasma
Que os passeia de leve, assim se aproximam na lembrança de seu trilho
E eles quedam mordidos para sempre
Deixam de existir, mas o existido continua à doer eternamente!

Carlos Drummond de Andrade

Blog no WordPress.com.