The mind is its own place…

Novembro 29, 2007

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 3:08 pm

“Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu queria amar o que eu amaria – e não o que é. É também porque eu me ofendo a toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário(…). Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.”

Clarice Lispector

Desassossegados

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 3:04 pm

Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.

Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.

Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam antes de concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.

Martha Medeiros


 

Novembro 28, 2007

Soneto Azul

Arquivado em: Mario Quintana, Poesia — Daniela @ 4:34 pm

Quando desperto mansamente agora
é todo um sonho azul minha janela
e nela ficam presos esses olhos
amando-te no céu que faz lá fora.

Tu me sorris em tudo, misteriosa…
e a rua que – tal como outrora – desço,
a velha rua, eu mal a reconheço
em sua graça de menina-moça…

Riso na boca e vento no cabelo,
delas vem vindo em bando…E ao vê-lo
por um acaso olha-me a mais bela.

Sabes eu amo-te a perder de vista…
E bebo então, com uma saudade louca,
teu grande olhar azul nos olhos dela!

Mario Quintana

Canto de Ossanha

Arquivado em: Vídeos — Daniela @ 4:22 pm

Canto de Ossanha
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)

O homem que diz “dou” não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz “vou” não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz “sou” não é
Porque quem é mesmo é “não sou”
O homem que diz “tô” não tá
Porque ninguém tá quando quer

Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha , traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor

Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

Amigo senhor, saravá,
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha , não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte ao seu Orixá, o amor só é bom se doer
Pergunte ao seu Orixá o amor só é bom se doer

Vai, vai, vai, vai, amar
Vai, vai, vai, sofrer
Vai, vai, vai, vai, chorar
Vai, vai, vai, viver

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

Medo de Amar

Arquivado em: Vídeos — Daniela @ 4:18 pm

Novembro 27, 2007

Erro

Arquivado em: Machado de Assis, Poesia — Daniela @ 1:08 am

Erro é teu. Amei-te um dia
com esse amor passageiro
que nasce na fantasia
e não chega ao coração;
não foi amor, foi apenas
uma ligeira impressão;
um querer indiferente,
em tua presença, vivo,
morto, se estavas ausente;
e, se ora me vês esquivo,
se, como outrora, não vês
meus incensos de poeta
ir eu queimar a teus pés
é que — como obra de um dia,
passou-me esta fantasia.
para eu amar-te, devias
outra ser e não como eras.
tuas frívolas quimeras,
teu vão amor de ti mesma.
essa pêndula gelada
que chamavas coração,
eram bem fracos liames
para que a alma enamorada
me conseguissem prender;
foram baldados tentames,
saiu contra ti o azar,
e, embora pouca, perdeste
a glória de me arrastar
ao teu carro… vãs quimeras!
para eu amar-te devias
outra ser e não como eras…

Machado de Assis

Círculos Vicioso

Arquivado em: Machado de Assis, Poesia — Daniela @ 1:06 am

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
“Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

“Mísera! tivesse eu aquela enorme, àquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

“Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

Machado de Assis

Amor – pois que é palavra essencial

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 1:00 am

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então, a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Carlos Drummond de Andrade

Ainda que mal

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 12:58 am

Ainda que mal
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entendas,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda, assim, pergunto:
me amas?
E me queimando em teu seio,
me salvo e me dano…
… de amor.

Carlos Drummond de Andrade

Enumeração

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 12:56 am

Velhos amores incompletos no gelo seco do passado,
Velhos furores demenciais esmigalhados no mutismo de demônios crepusculares,
Velhas traições a doer sempre na anestesia do presente,
Velhas jogadas de prazer sem a menor deleitação,
Velhos signos de santidade atravessando a selva negra como cervos escorraçados,
Velhos gozos de torva índole,
Velhas volúpias estagnadas,
Velhos braços e mãos e pés em transtornada oscilação logo detida, velhos choros que não puderam ser chorados,
Velhos isso, velhos aquiloss dos quais sequer me lembro mais…

Carlos Drummond de Andrade

A Destruição

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 12:51 am

Os amantes se amam cruelmente
E com se amarem tanto, não se vêem
Um beija o outro refletido
Dois amantes o que são?

Amantes são mentes estragadas
Pelo mimo do amor e e não percebem
Quando se pulverizam no enlaçar-se
E com o q era mundo volve o nada

Nada, ninguém. Amor. Puro fantasma
Que os passeia de leve, assim se aproximam na lembrança de seu trilho
E eles quedam mordidos para sempre
Deixam de existir, mas o existido continua à doer eternamente!

Carlos Drummond de Andrade

Novembro 25, 2007

Vigília

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 1:28 pm

Eu às vezes acordo e olho a noite estrelada
E sofro doidamente.
A lágrima que brilha nos meus olhos
Possui por um segundo a estrela que brilha no céu.
Eu sofro no silêncio
Olhando a noite que dorme iluminada
Pavorosamente acordado à dor e ao silêncio
Pavorosamente acordado!
Tudo em mim sofre.
Ao peito opresso não basta o ar embalsamado da noite
Ao coração esmagado não basta a lágrima triste que desce,
E ao espírito aturdido não basta a consolação do sofrimento.
Há qualquer coisa fora de mim, não sei, no vago
Como que uma presença indefinida
Que eu sinto mas não tenho.

Meu sofrimento é o maior de todos os sentimentos
Porque ele não precisou a visão que flutua
E não a precisará jamais.
A dor estará em mim e eu estarei na dor
Em todas as minhas vigílias…
Eu sofrerei até o último dia
Porque será meu último dia o último dia da minha mocidade.

Vinícius de Moraes

Soneto do Só

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 1:14 pm

Depois foi só. O amor era mais nada
Sentiu-se pobre e triste como Jó
Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada
Espantado, parou. Depois foi só

Depois veio a poesia ensimesmada
Em espelhos, sofreu de fazer dó
Viu a face de Cristo ensangüentada
Da sua imagem e orou. Depois foi só.

Depois veio o verão e veio o medo
Desceu de seu castelo até o rochedo
Sobre a noite e do mar lhe veio a voz

A anunciar os anjos sanguinários.
Depois cerrou os olhos solitários
E só então foi totalmente a sós.

Vinícius de Moraes

A Balada do Mangue

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 1:13 pm

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Lœlia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu…
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!

Vinícius de Moraes

Poema dos Olhos da Amada

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 1:04 pm

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus…
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

Vinícius de Moraes 

Novembro 23, 2007

Vida e Poesia

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:58 pm

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.

Na rua ignorada anjos brincavam de roda…
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.

Vinícius de Moraes

A Hora Íntima

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:51 pm

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal…
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:45 pm

Um amor não é feito só de sentimentos, e nem só de planos, e nem só de atos heróicos, e nem só de ações. Um amor, quando é bem grande, fica tão grande que precisa se tornar presente, precisa ser expressado e concretizado. Talvez porque todo amor, mesmo novinho, mesmo cheio de esperança de durar, sabe que é frágil e que pode acabar antes mesmo de conseguir renovar-se. E precisa deixar muitos sinais, muitas marcas para ser lembrado. Porque o sonho de todo amor, se não puder ser eterno, é ser assim: inesquecível.

Vinicius de Moraes

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:42 pm

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

Vinícius de Moraes

Novembro 22, 2007

Metade – Oswaldo Montenegro

Arquivado em: Vídeos — Daniela @ 3:10 pm

Valsinha

Arquivado em: Vídeos — Daniela @ 3:07 pm

João e Maria

Arquivado em: Vídeos — Daniela @ 3:06 pm

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim

Medo de amar

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 1:00 pm

O céu está parado, não conta nenhum segredo
A estrada está parada, não leva a nenhum lugar
A areia do tempo escorre de entre meus dedos
Ai que medo de amar!

O sol põe em relevo todas as coisas que não pensam
Entre elas e eu, que imenso abismo secular…
As pessoas passam, não ouvem os gritos do meu silêncio
Ai que medo de amar!

Uma mulher me olha, em seu olhar há tanto enlevo
Tanta promessa de amor, tanto carinho para dar
Eu me ponho a soluçar por dentro, meu rosto está seco
Ai que medo de amar!

Dão-me uma rosa, aspiro fundo em seu recesso
E parto a cantar canções, sou um patético jogral
Mas viver me dói tanto! e eu hesito, estremeço…
Ai que medo de amar!

E assim me encontro: entro em crepúsculo, entardeço
Sou como a última sombra se estendendo sobre o mar
Ah, amor, meu tormento!… como por ti padeço…
Ai que medo de amar!

Vinícius de Moraes

Para viver um grande amor

Arquivado em: Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:59 pm

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.

Vinicius de Moraes

Carne

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:55 pm

Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
se tu és a extensão da carne
Sempre presente?

Vinícius de Moraes

Os Acrobatas

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:53 pm

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.

Vinícius de Moraes

Além do Amor

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:51 pm

Se tu queres que eu não chore mais
Diga ao tempo que não passe mais
Chora o tempo o mesmo pranto meu
Ele e eu, tanto
Que só para não te entristecer
Que fazer, canto
Canto para que te lembres
Quando eu me for

Deixa-me chorar assim
Porque eu te amo
Dói a vida
Tanto em mim
Porque eu te amo
Beija até o fim
As minhas lágrimas de dor
Porque eu te amo, além do amor!

Vinícius de Moraes

Na esperança de seus olhos

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:49 pm

Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos
Penetrando lentamente as dolidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando dos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.

Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.

Ai de mim, eu pus-me a amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.

Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.

Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.

E é por isso que te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas…

Vinícius de Moraes

A Rosa Desfolhada

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:47 pm

Tento compor o nosso amor dentro da tua ausência,
toda loucura, todo martírio de uma paixão imensa,
teu toca discos, nosso retrato, um tempo descuidado
tudo pisado, tudo partido, tudo no chão jogado
Em cada canto teu desencanto tua melancolia,
teu triste vulto desesperado ante o que eu te dizia
E logo o espanto e logo o insulto o amor dilacerado
e logo o pranto ante a agonia do fato consumado
Silenciosa ficou a rosa no chão despetalada
que eu com meus dedos tentei a medo reconstruir do nada
o teu perfume, teus doces pêlos, a tua pele amada
tudo desfeito, tudo perdido, a rosa desfolhada.

Vinícius de Moraes

Conjugação da ausente

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:45 pm

Foram precisos mais dez anos e oito quilos
Muitas cãs e um princípio de abdômen
(Sem falar na Segunda Grande Guerra, na descoberta da penicilina e na desagregação do átomo)
Foram precisos dois filhos e sete casas
(Em lugares como São Paulo, Londres, Cascais, lpanema e Hollywood)
Foram precisos três livros de poesia e uma operação de apendicite
Algumas prevaricações e um exequatur
Fora preciso a aquisição de uma consciência política
E de incontáveis garrafas; fora preciso um desastre de avião
Foram precisas separações, tantas separações
Uma separação…

Tua graça caminha pela casa
Moves-te blindada em abstrações, como um T. Trazes
A cabeça enterrada nos ombros qual escura
Rosa sem haste. És tão profundamente
Que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadro
Porque te participam. Fora, o jardim
Modesto como tu, murcha em antúrios
A tua ausência. As folhas te outonam, a grama te
Quer. És vegetal, amiga…
Amiga! direi baixo o teu nome
Não ao rádio ou ao espelho, mas à porta
Que te emoldura, fatigada, e ao
Corredor que pára
Para te andar, adunca, inutilmente
Rápida. Vazia a casa
Raios, no entanto, desse olhar sobejo
Oblíquos cristalizam tua ausência.
Vejo-te em cada prisma, refletindo
Diagonalmente a múltipla esperança
E te amo, te venero, te idolatro
Numa perplexidade de criança.

Vinícius de Moraes

Ternura

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 12:40 pm

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo.
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas, nem a fascinação das promessas.
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um trasbordamento de carícias.
E só te pede que repouses quieta, muito quieta.
E deixe que as mãos cálidas da noite
Encontre sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes

Arquivado em: Fernando Pessoa — Daniela @ 12:05 pm

“Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista…”

 

Livro do Desassossego – Bernardo Soares

Arquivado em: Fernando Pessoa — Daniela @ 12:04 pm

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o hermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.”

 

Livro do Desassossego – Bernardo Soares

Arquivado em: Fernando Pessoa — Daniela @ 12:01 pm

“(…)
Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.”

Bernardo Soares – Livro do Desassossego

Arquivado em: Fernando Pessoa — Daniela @ 12:01 pm

“Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos. Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos (…)”

Bernardo Soares – Livro do Desassossego

Soneto LXVI

Arquivado em: Poesia, Shakespeare — Daniela @ 11:58 am

Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?

Por que só escrevo essa monotonia
Tão incapaz de produzir inventos
Que cada verso quase denuncia
Meu nome e seu lugar de nascimento?

Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas.
E assim vou refazendo o que foi feito,

Reinventando as palavras do poema.
Como o sol, novo e velho a cada dia,
O meu amor rediz o que dizia.

Shakespeare

A Libélula e a Tartaruga

Arquivado em: Rubem Alves — Daniela @ 11:57 am

A libélula recém nascida, que pairava as suas leves asas sobre a água transparente do ribeirão, viu imóvel sobre uma pedra, uma tartaruga que tomava banho de sol. Espantada diante de uma criatura tão feia, pousou sobre uma folha de capim a fim de ver melhor. A tartaruga, achando que a libélula a estava admirando, começou a falar:

- Olá – disse ela.

A libélula levou um susto.

- Pensei que você estivesse morta, de tão parada.

- Já fui como você, minha criança, muito agitada, mas aprendi que é perigoso vier assim. Em você tudo é esbanjamento: asas vibrando, ir e vir nas costas do vento, voar sem cessar. Mas tudo isso faz mal. Quem se mexe muito morre logo. A vida é como a vela: há de se economizar para durar mais. Minha filosofia é simples: nunca ficar de pé, quando posso ficar deitada. Para simplificar, fico sempre deitada…

A libélula espantada de que alguém pudesse viver assim, ia perguntar se a vida vale a pena. Mas não deu tempo porque a tartaruga continuou a falar:

- Você ainda não aprendeu a lição do peso. Para se voar é preciso ser leve. Mas tudo o que é leve é frágil. As crianças gostam de empinar papagaios. Mas para subir no vento, else têm de ser feitos com varetas finas de bambu e papel de seda. Por isso, acabam quase sempre enroscados em algum galho de árvore. Mas você nunca viu uma tartaruga enroscada num galho de árvore. Estão fora dos enroscos porque não se metem a voar, porque são muito pesadas e por isso ficam sempre junto ao chão. Somos prudentes. Voar é perigoso, exige leveza e fragilidade. Isso é coisa que fascina as crianças, mas não os adultos. Os adultos são graves. E grave é aquilo que respeita a lei da gravidade e gosta de ir para baixo. Como eu. Os adultos quando querem elogiar alguém dizem que ele é uma pessoa de peso. O contrário de peso? Leveza, bexiga solta no espaço. Quando se diz que alguém é leviano, isso não é um elogio, é uma ofensa. Leviano é quem não leva as coisas a sério, como as crianças. Quanto mais adultas, mais parecidas comigo.

A libélula ia dizer que ser leve é coisa muito gostosa, porque dá sempre uma enorme vontade de rir, mas se calou, com medo de ser acusada de leviana. A tartaruga não entenderia.

- E há também a necessidade de defesas – continuou a tartaruga – Veja o seu corpo, fino como um palito. O bico de qualquer pássaro pode cortá-lo ao meio. E suas asas? Lindas e fracas. Veja agora a minha carapaça. Nem martelo consegue quebrá-la. Você é mole, eu sou dura. Mole são as crianças, os palhaços, os poetas, os artistas. Duros são os generais, os banqueiros, os policiais, as pessoas importantes. Quando as crianças deixam de ser uma libélula para se tornarem uma tartaruga, os adultos dizem que elas ficaram maduras. Na verdade o que querem dizem é que ficaram armaduras. Coisa madura é coisa mole, gostosa, boa de se comer e se descuidar apodrece e acaba. Já a armadura é coisa que vara os séculos. Como eu, impenetrável, constante, sempre a mesma. Digna de confiança. Serei amanhã o que sou hoje. Quanto a você, não sei onde estará. As coisas leves passam. As duras permanecem. Ninguém diz que Deus é vento ou nuvem.

Mas dizem que é rocha e fortaleza. Claro que as armaduras criam certos problemas. Fica difícil para brincar, pular, abraçar… Mas é o preço da sobrevivência.
Rubem Alves

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:55 am

“…Meu esforço: trazer agora o futuro para já. Movo-me dentro de meus instintos fundos que se cumprem às cegas. Sinto então que estou nas proximidades de fontes, lagoas e cachoeiras, todas de águas abundantes. E eu livre.
…Quando digo “águas abundantes” estou falando da força de corpo nas águas do mundo. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio. Ah tenho medo do Deus e do seu silêncio.”.

Clarice Lispector – “Água Viva”

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:52 am

“Agora preciso da tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor”. 

Clarice Lispector

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:51 am

“Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto,
tanto, tanto – uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir”.

 

Clarice Lispector

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:51 am

“Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou”.  

Clarice Lispector

Gosto quando te calas

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:49 am

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade. 

 
Pablo Neruda

Arquivado em: Fernando Pessoa, Poesia — Daniela @ 11:46 am

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E vê menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas,
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

 

Alberto Caeiro

Arquivado em: Fernando Pessoa — Daniela @ 11:45 am

“As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma”.

 

Bernardo Soares – Livro do Desassossego

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:44 am

“Não posso escrever enquanto estou ansiosa
ou espero soluções porque em tais períodos
faço tudo para que as horas passem; e escrever
é prolongar o tempo, é dividi-lo em partículas de
segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível”.

 

Clarice Lispector – Água Viva

Arquivado em: Fernando Pessoa, Poesia — Daniela @ 11:43 am

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses..

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

            Ricardo Reis

Análise

Arquivado em: Fernando Pessoa, Poesia — Daniela @ 11:42 am

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa

Arquivado em: Victor Hugo — Daniela @ 11:41 am

“Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos”.


Victor Hugo

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:41 am

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

Fome

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:40 am

Tenho fome da tua boca, da tua voz, teus cabelos
e pelas ruas vou sem me nutrir, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
procuro o líquido som de teus pés pelo dia.
Faminto estou de teu sorriso resvelado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como intacta amêndoa.

Pablo Neruda

Escrever

Arquivado em: Drummond — Daniela @ 11:38 am

“Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário”.

 

Carlos Drummond de Andrade

Talvez

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:36 am

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás…Seremos…

Pablo Neruda

Ontem à noite

Arquivado em: Poesia, Victor Hugo — Daniela @ 11:30 am

Ontem — sozinhos — eu e tu, sentados,
Nos contemplamos quando a noite veio:
Queixosa e mansa a viração dos prados
Beijava o rosto e te afagava o seio,
Que palpitava como ao longe o mar…
E lá no céu esses rubis pregados
Brilhavam menos que teu vivo olhar!
Co´a mão nas minhas, no silêncio augusto,
Tu me falavas sem mentido susto,
E nunca a virgem que a paixão revela,
Passou-me em sonhos tão formosa assim!

Victor Hugo

O Tempo

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 11:29 am

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:28 am

“Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar por que, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora adivinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.

E depois saberei como pintar e escrever, depois da estranha mas íntima resposta. Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão. Um instante me leva insensivelmente a outro e o tema atemático vai se desenrolando sem plano mas geométrico como as figuras sucessivas num caleidoscópio.

Sim, esta é a vida vista pela vida. Mas de repente esqueço o como captar o que acontece, não sei captar o que existe senão vivendo aqui cada coisa que surgir e não importa o que: estou quase livre de meus erros. Deixo o cavalo livre correr fogoso. Eu, que troto nervosa e só a realidade me delimita.

Estou respirando. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Como é que a ostra nua respira? Se respira não vejo. O que não vejo não existe? O que mais me emociona é que o que não vejo contudo existe. Porque então tenho aos meus pés todo um mundo desconhecido que existe pleno e cheio de rica saliva. A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela.

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.”

Clarice Lispector – Água Viva

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:27 am

Saberás que não te amo e que te amo
porquanto de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade fria.

Eu te amo para começar a te amar,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de te amar nunca:
por isso mesmo é que ainda não te amo.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos a chave da ventura
e um incerto destino desditado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isto te amo quando não te amo
e por isto te amo quando te amo.

Pablo Neruda

A Noite na Ilha

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:25 am

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora – pão,
vinho, amor e cólera – te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda

A Felicidade

Arquivado em: Jorge Luis Borges, Poesia — Daniela @ 11:24 am

Quem abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece pela primeira vez.
Avistei uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas
o que posso fazer com uma palavra e com uma mitologia.
As árvores dão-me um pouco de medo. São tão formosas.
Os mansos animais se aproximam para que eu lhes diga
seu nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro, surgem.
Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.
Quem acende um fósforo no escuro está inventando o fogo.
No espelho há outro à espreita.
Quem olha o mar vê a Inglaterra.
Quem profere um verso de Liliencron já entrou na batalha.
Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago.
Sonhei a espada e a balança.
Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída,
mas dois que se entregam.
Louvado seja o pesadelo, por nos revelar que podemos criar
o inferno.
Quem desce a um rio desce ao Ganges.
Quem olha um relógio de areia vê a dissolução de um império.
Quem joga com um punhal pressagia a morte de César.
Quem dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge, que acabam de lavrar.
Não há nada tão antigo sob o sol.
Tudo acontece pela primeira vez, porém de modo eterno.
Quem lê minhas palavras está inventando-as.

Jorge Luis Borges

Inconfesso Desejo

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 11:23 am

Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo.

Carlos Drummond de Andrade

Borboletas e Morcegos

Arquivado em: Rubem Alves — Daniela @ 11:22 am

Esta é uma estória sobre borboletas e morcegos. Borboletas são bichinhos leves, de asas coloridas, que gostam de brincar com as flores enquanto o sol está brilhando no céu. As borboletas amam o dia. Os morcegos são bichos feios, de asas negras, que só voam durante a noite.

Essa estória aconteceu, faz muito tempo. O Sol brilhava sozinho no céu, sorridente. Tinha estado brilhando, sem parar, desde toda eternidade. Mas chegou um dia em que ele se cansou de brilhar sozinho. Ficou triste. E ele disse para si mesmo: “Para quem estou brilhando? Que adianta brilhar se não há ninguém que brinque com os meus raios? Só ficarei alegre de novo quando tiver amigos com quem brincar…”

Ditas essas palavras o Sol resolveu criar o mundo. E foi assim que ele fez: começou a piscar, e a cada piscada que ele dava uma coisa nova aparecia. Piscou montanhas, piscou rios, piscou mares, piscou praias, piscou florestas. Piscou sapos, piscou girafas, piscou camelos, piscou macacos, piscou tucanos… Piscou caramujos, piscou joaninhas, piscou lagartixas, piscou grilos… Piscou jabuticabas, piscou mangas, piscou pitangas… Piscava, e quando via a coisa que aparecia, o Sol morria de dar risada. Porque tudo era muito divertido. Por fim ele piscou um jardim, piscou balanços, piscou gangorras – e piscou um punhado de crianças, meninas e meninos. E foi assim que a nossa Terra foi criada.

“Agora tenho para quem brilhar, agora tenho com quem brincar”, disse o Sol cheio de felicidade. E para que nunca houvesse tristeza ele criou, por fim, as borboletas. As borboletas são os Anjos da Alegria que o Sol colocou no mundo. Mas, para isso, elas têm de ter uma dieta especial: alimentam-se do néctar das flores, porque as flores estão sempre alegres. E o Sol lhes disse: “Quando vocês virem uma pessoa triste, chorando, pousem no seu nariz! Com uma borboleta pousada no nariz não há jeito de não sorrir!” E assim, graças às borboletas, o mundo que o Sol criou estava sempre alegre.

E o Sol piscou também lindas borboletas pretas de grandes asas brilhantes. Preto é uma linda cor: cor das jabuticabas, cor de cabelos, cor de olhos, cor da noite: é preciso que a noite seja preta para que as estrelas brilhem.

Mas as borboletas pretas não gostaram da sua cor. Acharam que preto era feio. Queriam ser coloridas. Ficaram com inveja das borboletas coloridas. Ficaram com raiva das borboletas coloridas. Ficaram com raiva do Sol, que as tinha feito pretas. E se recusaram a brincar.

“Brincar nós não vamos”, elas disseram. Deixaram a brincadeira e se esconderam em buracos profundos, em cavernas escuras. E ficaram lá, remoendo sua raiva, remoendo sua inveja. E foi assim que as borboletas pretas, de tanto ficarem no escuro, acabaram por ficar cegas para a luz. Só viam no escuro. Passaram a ter raiva do dia, quando tudo estava brincando. E a raiva fez nelas uma transformação feia. Raiva não beija. Raiva morde. Assim, a boca gostosa que tinham, para beijar as flores e sugar o seu mel, se encheu de dentes afiados. Deixaram de ser borboletas. Transformaram-se em morcegos.

Seu mundo passou a ser as cavernas fundas e escuras da terra onde moravam. E foram se multiplicando, tendo filhos, muitos filhos, todos eles com olhos cegos para a luz, todos eles com dentes afiados em sua boca.

Mas chegou um dia em que as cavernas ficaram pequenas para os milhões, os zilhões de morcegos. O que acontece com uma bexiga que a gente vai enchendo de ar, sem parar? Chega um momento em que – bum! – a bexiga estoura. Pois foi o que aconteceu. As cavernas estouraram. Aconteceu uma erupção de morcegos, parecida com a erupção dos vulcões. Saíam morcegos por todos os buracos da terra, morcegos que não paravam de sair – e eram tantos, tantos, que eles se transformaram numa enorme nuvem negra que cobriu a luz do sol.

Ficou noite. E os morcegos, vendo a escuridão, ficaram felizes e riram um riso malvado: “Estamos vingados! Agora será sempre noite! As borboletas coloridas não mais voarão.. O Sol não terá com quem brincar!”

E foi isso mesmo que aconteceu. As borboletas, ao abrir os olhos do seu sono, viram tudo escuro e disseram: “Ainda é noite. Não é hora de brincar”. E voltavam a dormir.

O Sol não brilhando, ficou frio. As borboletas começaram a tremer. E trataram de se proteger. Teceram cobertores de fios e neles se enrolaram. E ficaram assim penduradas em árvores, em paus de telhado, em paredes, dormindo, dormindo, esperando que o dia voltasse… E o mundo ficou triste porque não havia mais borboletas que pousassem no nariz dos tristes para fazê-los espirrar e sorrir. E o Sol ficou triste porque não tinha mais com quem brincar.

Mas o Sol era esperto. Sabia que há duas maneiras de iluminar criaturas. A primeira é brilhando do lado de fora. A segunda é brilhando do lado de dentro. O brilho do Sol, no lado de dentro da gente se chama “sonho”. O sono é a hora em que o Sol brilha do lado de dentro da gente. Sonhamos com aquilo de desejamos. O Sol, então, começou a iluminar as borboletas durante os seus sonhos. Ele aparecia disfarçado de estrela.

Havia uma borboleta que, enrolada em seu cobertor, se pendurara no pau de um estábulo. Estábulo é onde ficam as vacas, os cavalos, as ovelhas… Essa borboleta sonhou com a estrela. Era uma estrela enorme, diferente. Brilhava com uma luz azul. Os morcegos não ligaram porque pensaram que era apenas a luz de mais uma estrela. Não sabiam que era a luz do Sol disfarçado…

A borboleta, dormindo pendurada no pau do estábulo, ficou feliz vendo a estrela. Tão feliz que começou a sorrir. E a felicidade, mesmo sonhada, tem um poder mágico: transforma as pessoas.

E a borboleta começou a engordar. É que o Sol havia colocado na luz da estrela azul as suas sementes de alegria. A borboleta adormecida, iluminada com a luz da estrela azul, ficou grávida com a alegria do Sol!

A barriga da borboleta foi crescendo, foi crescendo – até que chegou a hora do nascimento da alegria que o Sol plantara dentro dela.

Finalmente a alegria nasceu. Nasceu, e tinha a aparência de um Menininho. E como ele era filho do Sol, ele brilhava como o seu pai. O brilho do Menininho fez tudo ficar luminoso.. Quem visse o Menininho ficava iluminado: ficava alegre, se esquecia da tristeza.

E assim, iluminado pela luz do Menininho, o mundo foi acordando. Foi como acontece nas madrugadas: a escuridão da noite vai sumindo, iluminada pelas lindas cores que vão aparecendo no horizonte.

O mundo acordou da noite escura. Acordaram os pássaros, acordaram as flores, acordaram os riachos, acordou o mar, acordaram as nuvens, acordaram as borboletas. Acordadas, as borboletas começaram a voar. E foram elas pousando no nariz dos homens e das mulheres. E eles espirravam e davam risadas!

Os morcegos, quando perceberam que tinham sido enganados pelo Sol, ficaram furiosos. O Morcegão Rei deu ordem aos morcegos para que fossem até o estábulo e comessem o Menino-Sol. E eles partiram cheios de raiva, com seus dentes afiados à mostra. Mas, quando iam chegando, a luz era tão bonita! A luz do Menino-Sol iluminava suas asas pretas. E o brilho do Sol nas suas asas era lindo. Era como o Sol nascendo, no meio da noite, luz brilhando na escuridão. E os morcegos olharam uns para os outros e se espantaram: nunca haviam se visto assim, tão bonitos. Assentaram-se na cerca que cercava o estábulo, encantados com a beleza que morava neles e que eles nunca haviam visto, por causa da inveja e da raiva. E começaram a sorrir. E quando sorriram deram espirros, e o espirro foi tão forte que seus dentes afiados caíram. Voltaram a ser borboletas! E os outros morcegos, vendo o que estava acontecendo com seus amigos, ficaram curiosos e foram ver o Menino-Sol. E quando o viram, a mágica se repetiu: se acharam bonitos e foram transformados em borboletas.

Borboletas, passaram a gostar de brincar com a luz. O dia voltou. O Sol brilhou no céu. E as borboletas voltaram a fazer o seu trabalho de espantar a tristeza assentando-se no nariz dos tristes!

Que coisa mais bonita! O Sol, ninguém pode ver. Sua luz é muito forte. Quem olha para o Sol fica cego. Ninguém pode brincar com ele. Sua luz é muito quente. Queima. Mas, no rosto do Menino-Sol a luz do sol fica mansa: a gente pode brincar com ele..

E desde aquele dia é assim: se alguém está triste basta olhar para o rosto de uma criança: uma borboleta vem voando, faz cócegas no nariz, vem um espirro, a tristeza vai embora e a gente começa a sorrir…

Rubem Alves

Quando chorar

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:17 am

”Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda”.

Clarice Lispector

Arquivado em: Fernando Pessoa, Poesia — Daniela @ 11:16 am

Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la,
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar ela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:15 am

“O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado”.

Clarice Lispector

Arquivado em: Shakespeare — Daniela @ 11:14 am

“Estrelas, escondam o seu brilho, não permitam que a luz veja meus profundos e escuros desejos. Que o olho se feche ao movimento da mão; e, no entanto, que aconteça!”.

Shakespeare

Arquivado em: Poesia, Shakespeare — Daniela @ 11:13 am

Cansado de lutar corro ao meu leito
para o repouso a que meu corpo aspira
mas minha mente, à hora em que me deito
trabalha em mim, quando o trabalho expira.
Pois já meus pensamentos bem despertos
correm, ciumentos para a tua busca,
e conservo os meus olhos bem abertos
olhando a escuridão que o cego ofusca.
Minh’alma em sonho vê tua figura
que, como se essa sombra me cegasse
- jóia brilhando sobre a noite escura
faz bela a noite e nova a sua face.
Assim de dia o corpo e à noite a alma
por ti, como por mim, não acha calma.

Shakespeare

Ausência

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 11:13 am

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:12 am

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda

Arquivado em: Pablo Neruda, Poesia — Daniela @ 11:09 am

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito…”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda

Reflexões

Arquivado em: Clarice Lispector — Daniela @ 11:07 am

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém…
que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la…
Sonhe com aquilo que você quiser…
Seja o que você quer ser…
Porque você possui apenas uma vida
E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram…
Para aqueles que buscam e tentam sempre…
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar…
…duram uma eternidade…

Clarice Lispector

As bolas de sabão

Arquivado em: Fernando Pessoa, Poesia — Daniela @ 11:05 am

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro

Nem sempre sou igual

Arquivado em: Fernando Pessoa — Daniela @ 11:04 am

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
Mudo, mas não mudo muito. 
A cor das flores não é a mesma ao sol 
De que quando uma nuvem passa 
Ou quando entra a noite 
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. 
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim: 
Se estava virado para a direita, 
Voltei-me agora para a esquerda, 
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — 
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
E aos meus olhos e ouvidos atentos 
E à minha clara simplicidade de alma …

Alberto Caeiro

Novembro 21, 2007

A melhor resposta

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 11:31 pm

Para saber quem somos, basta que se observe o que fizemos da nossa vida. Os fatos revelam tudo, as atitudes confirmam. Quem é você? Do que gosta? Em que acredita? O que deseja? Dia e noite somos questionados, e as respostas costumam ser inteligentes, espirituosas e decentes.Tudo para causar a melhor impressão aos nossos inquisidores.

Ora, quem sou eu. Sou do bem, sou honesto, sou perseverante, sou bem-humorado, sou aberto – não costumamos economizar atributos quando se trata da nossa própria descrição. Do que gostamos? De coisas belas. No que acreditamos? Em dias melhores. O que desejamos? A paz universal. Enquanto isso, o demônio dentro de nós revira o estômago e faz cara de nojo. É muita santidade para um pobre-diabo, ninguém é tão imaculado assim.

A despeito do nosso inegável talento como divulgadores de nós mesmos e da nossa falta de modéstia ao descrever nosso perfil no Orkut, a verdade é que o que dizemos não tem tanta importância. Para saber quem somos, basta que se observe o que fizemos da nossa vida. Os fatos revelam tudo, as atitudes confirmam. O que você diz – com todo o respeito – é apenas o que você diz. Entre a data do nosso nascimento e a desconhecida data da nossa morte, acreditamos ainda estar no meio do percurso, então seguimos nos anunciando como bons partidos, incrementamos nossas façanhas, abusamos da retórica como se ela fosse uma espécie de photoshop que pudesse sumir com nossos defeitos. Mas é na reta final que nosso passado nos calará e responderá por nós. Quantos amigos você manteve. Em que consiste sua trajetória amorosa. Como educou seus filhos. Quanto houve de alegria no seu cotidiano.Qual o grau de intimidade e confiança que preservou com seus pais. Se ficou devendo dinheiro. Como lidou com tentativas de corrupção. Em que circunstâncias mentiu. Como tratou empregados, balconistas, porteiros, garçons. Que impressão causou nos outros – não naqueles que o conheceram por cinco dias, mas com quem conviveu por 20 anos ou mais. Quantas pessoas magoou na vida. Quantas vezes pediu perdão. Quem vai sentir sua falta. Pra valer, vamos lá. Podemos maquiar algumas respostas ou podemos silenciar sobre o que não queremos que venha à tona. Inútil. A soma dos nossos dias assinará este inventário. Fará um levantamento honesto. Cazuza já nos cutucava: suas idéias correspondem aos fatos? De novo: o que a gente diz é apenas o que a gente diz. Lá no finalzinho, a vida que construímos é que se revelará o mais eficiente detector de nossas mentiras.

Martha Medeiros

Amor em estado bruto

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 11:24 pm

O que é, o que é? Faz você ter olhos para uma única pessoa, faz você não precisar mais sair sozinho, faz você querer trocar de sobrenome, faz você querer morar sob o mesmo teto. Errou. Não é amor.

Todo mundo se pergunta o que é o amor. Há quem diga que ele nem existe, que é na verdade uma necessidade supérflua criada por um estupendo planejamento de marketing: desde crianças somos condicionados a eleger um príncipe ou princesa e com eles viver até que a morte nos separe. Assim, a sociedade se organiza, a economia prospera e o mundo não foge do controle.

O parágrafo anterior responde o primeiro. Não é amor querer fundir uma vida com outra. Isso se chama associação: duas pessoas com metas comuns escolhem viver juntas para executar um projeto único, que quase sempre é o de constituir família. Absolutamente legítimo, e o amor pode estar incluído no pacote. Mas não é isso que define o amor.

Seguramente, o amor existe. Mas, por não termos vontade ou capacidade para questionar certas convenções estabelecidas, acreditamos que dar amor a alguém é entregar a essa pessoa nossa vida. Não só nosso eu tangível, mas entregar também nosso tempo, nosso pensamento, nossas fantasias, nossa libido, nossa energia: tudo aquilo que não se pode pegar com as mãos, mas se pode tentar capturar através da possessão.

O amor em estado bruto, o amor 100% puro, o amor desvinculado das regras sociais é o amor mais absoluto e o que maior felicidade deveria proporcionar. Não proporciona porque exigimos que ele venha com certificado de garantia, atestado de bons antecedentes e comprovante de renda e de residência. Queremos um amor ficha-limpa para que possamos contratá-lo para um cargo vitalício. Não nos agrada a idéia de um amor solteiro. Tratamos rapidamente de comprometê-lo, não com nosso amor, mas com nossas projeções.

O amor, na essência, necessita de apenas três aditivos: correspondência, desejo físico e felicidade. Se alguém retribui seu sentimento, se o sexo é vigoroso e se ambos se sentem felizes

na companhia um do outro, nada mais deveria importar. Por nada, entenda-se: não deveria importar se o outro sente atração por outras pessoas, se o outro gosta de fazer algumas coisas sozinho, se o outro tem preferências diferentes das suas, se o outro é mais moço ou mais velho, bonito ou feio, se vive em outro país ou no mesmo apartamento e quantas vezes telefona por dia. Tempo, pensamento, fantasia, libido e energia são solteiros e morrerão solteiros, mesmo contra nossa vontade. Não podemos lutar contra a independência das coisas. Alianças de ouro e demais rituais de matrimônio não nos casam. O amor é e sempre será autônomo.

Fácil de escrever, bonito de imaginar, porém dificilmente realizável. Não é assim que estruturamos a sociedade. Amor se captura, se domestica e se guarda em casa. Às vezes forçamos sua estada e quase sempre entregamos a ele os direitos autorais de nossa existência. Quando o perdemos, sofremos. Melhor nem pensar na possibilidade de que poderíamos sofrer menos.

Martha Medeiros

O violinista do metrô

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 11:22 pm

Aconteceu em janeiro. O jornal Washington Post convidou um dos maiores violinistas do mundo, Joshua Bell, para tocar numa estação de metrô da capital americana a fim de testar a reação dos transeuntes. Desafio aceito, lá foi Bell de jeans e camiseta às oito da manhã, o horário mais movimentado da estação, para tocar no seu Stradivarius de 1713 (avaliado em mais de US$ 3 milhões) melodias de Bach e Schubert.

Passaram por ele 1.097 pessoas. Sete pararam alguns minutos para ouvi-lo. 27 largaram algumas moedas. E uma única mulher o reconheceu, porque havia estado em um de seus concertos, cujo valor médio do ingresso é US$ 100. Todos os outros usuários do metrô estavam com pressa demais para perceber que ali, a dois metros de distância, tocava um instrumentista clássico respeitado internacionalmente.

Não me surpreende. Vasos da dinastia Ching, de valor incalculável, seriam considerados quinquilharias se misturados a quaisquer outros numa feira de artesanato ao ar livre. Uma jóia correria risco de ser ignorada se fosse exposta numa lojinha de bijuterias, e ninguém pagaria mais de R$ 40 por uma escultura do mestre Aleijadinho que estivesse misturada a anjos de gesso vendidos em beira de estrada. Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medíocre.

Esta história do violinista demonstra que não estamos preparados para a beleza pura: é preciso um mínimo de conhecimento para valorizá-la. E demonstra também que temos sido treinados para gostar do que todo mundo conhece. Se uma atriz é muito comentada, se uma peça é muito badalada, se uma música é muito tocada no rádio, estabelece-se que elas são um sucesso e ninguém questiona. São consumidas mais pela insistência do que pela competência, enquanto que competentes sem holofotes passam despercebidos.

Gostaria muito de ter circulado pela estação de metrô em que tocava Joshua Bell. Não por admirá-lo: pra ser franca, nunca ouvi falar deste cara. O que eu queria era testar minha capacidade de encantamento sem estímulo prévio. Se ainda consigo destacar o raro sem que ninguém o anuncie. Tenho a impressão de que eu pararia para escutá-lo, mas talvez eu esteja sendo otimista. Vai ver eu também passaria apressada, sem me dar conta do tamanho do meu atraso.

Martha Medeiros

Quem você é, de verdade?

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 11:18 pm

Outro dia, a filósofa Marcia Tiburi usou uma expressão que foi na mosca. Ela disse que a televisão nos oferece uma “pretensão de realidade”.

Ela, a Marcia apresentadora do “Saia Justa”, não é a mesma Marcia que cozinha, vai ao shopping, dá aulas. A Marcia da TV imita a Marcia cotidiana. Não há má-fé nisso, é apenas um ajuste de postura, uma adequação ao ambiente. Marcia, que mantém seus dois pés no chão, sabe bem a hora de incorporar o personagem e a hora de despi-lo para tocar sua vida sem holofotes. Acontece conosco também: que não “incorpora um personagem” ao responder uma entrevista de emprego, ao ser apresentado para um possível pretendente, ao posar para uma foto? Nossa autenticidade está ali, mas acrescida de um certo empenho em criar uma boa impressão.

No entanto, são poucas as pessoas que conseguem definir bem a fronteira entre uma imagem construída para consumo externo e uma vida legítima, sem roteiro, comprometida apenas com os próprios desejos e angústias. A indústria do entretenimento cresceu tanto que essa vida “legítima” está se transformando num teatro de variedades onde não há mais platéia: estão todos no palco, vivendo personagens.

A adolescente de 14 anos está interpretando uma mulher de 25, e acreditando tanto no papel que já nem consegue mais distinguir a farsa – e nem voltar à inocência que ainda tem e não sabe.

Mulheres de 50 estão interpretando garotas de 18. Meninos de classe média estão interpretando decadentes vilões de cinema. Mulheres românticas estão interpretando piranhas de filme pornô.

Pessoas com qualidades e defeitos estão interpretando pessoas só com qualidades. Poucos toleram ser falíveis, pois estão se espelhando num mundo aparentemente sem falhas. Com isso, pretendem passar adiante uma versão melhorada deles próprios, sem perceber que ela pode constituir-se em uma versão mais arrogante, auto-suficiente, egoísta e bruta. Estamos acreditando mais no que recebemos da mídia do que nos nossos sentimentos genuínos. Quem é você, de verdade? Muitos teriam dificuldade em responder, porque a verdade está sendo substituída por projeções. Seria mais fácil responder: que mentira você pensa que é? Pessoas pensam que são mais especiais do que as outras, que são mais sábias, que não erram, que são refratáveis ao sofrimento, que agradam o tempo inteiro, que têm todas as respostas. Pensam que isso existe.

Nossos lares estão cada vez mais cenográficos, nossas atitudes, cada vez mais previsíveis, nosso visual, cada vez mais padronizado, e nossas dificuldades afetivas, cada vez mais parecidas com tramas de novela, em que tudo é complicado e nada se resolve antes do capítulo final. Nossa insistência em seguir modelos de comportamento estão, sem que notemos, nos condenando a uma prisão. Nosso crime: falsidade ideológica.

A modéstia e a simplicidade, de tão verdadeiras, passaram à categoria de qualidades indesejáveis. Não são consideradas pró-ativas, não são desencadeadoras de sucesso. Mas que sucesso é esse que se almeja? Acorde: as pessoas mais talentosas são, em sua maioria, as mais modestas, autênticas e sem pose. Simplismente não levam o personagem tão a sério.

Martha Medeiros – 07/08/2007

A pior vontade de viver

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 11:16 pm

Todos são tão comprensívos, aceitam tão bem as suas escolhas, torce por tudo o que você faz, não é mesmo? Desde que você faça o que está no script. Que siga o que foi determinado no roteiro, aquele que foi escrito sabe-se lá por quem e homologado no instante em que você nasceu. Mas e quem não quiser seguir esse script? Em dezembro próximo, serão completados 30 anos da morte da escritora Clarice Lispector, que entendia de subversões emocionais.

Fui convidada a participar de um evento que a homenageia, em Porto Alegre, e em função disso andei relendo algumas de suas obras, e encontrei no conto “Amor”, do livro “Laços de família”, uma de minhas frases prediletas. Assim ela descreve o sentimento da personagem Ana: “Seu coração enchera-se com a pior vontade de viver.” Ela é complexa, angustiante, subjetiva e intensa. Ela, “a pior vontade de viver”. A que não está disposta a negociar com a vontade dos outros.

No entanto, esta que foi chamada de a “pior” vontade pode ser também uma vontade genuína e inocente. É a vontade da criança que ainda levamos dentro, entranhada.

É o desejo de açúcar, de traquinagem, de fazer algo escondido, de quebrar algumas regras, de imitar os adultos. A “pior” vontade é curiosa, quer observar pelo buraco da fechadura e depois, mais ousadamente, abrir a porta e entrar no quarto proibido. A “pior” vontade é a de não se enraizar, não assinar contrato de exclusividade, não firmar compromisso, não se render às vontades fixas, apenas às vontades momentâneas, porque as fixas correm o risco de deixar de serem vontade para se transformarem em vaidade – como se sabe, há sempre aqueles que se envaidecem da própria persistência.

A “pior” vontade não quer ganhar medalha de honra ao mérito, não quer posar para fotografias, não quer completar bodas de ouro nem ser jubilada. A “pior” vontade não faz a menor questão de ser percebida, ela quer ser realizada. É quando você sabe que não deveria, mas vai. Sabe que não será fácil, mas enfrenta.

Sabe que tomarão como agressão, mas arrisca. Aqui, cabe lembrar: apenas se sentem agredidos aqueles que te invejam.

A vontade oficial, a vontade santinha, a que não causa incômodo, é a outra, a aprovada pela sociedade, a que não leva em conta o que vai no seu íntimo, e sim a opinião pública. É a vontade que todos nós, de certa forma, temos de mostrar para os outros que somos felizes, sem saber que para conseguir isso é preciso, antes, ter a”pior” vontade, aquela que faz você descobrir que ser feliz é ter consciência do efêmero, é saber-se capaz de agarrar o instante, é lidar bem com o que não é definitivo – ou seja, tudo.

É com esta “pior” vontade de viver que você atrai os outros, que seu magnetismo cresce, que seu rosto rejuvenesce e que você fica mais interessante. É uma pena que nem todos tenham a sorte de deixar vir à tona esta que Clarice Lispector chamou de “a pior vontade de viver”, e que, secretamente, é a melhor.

Martha Medeiros – 26/08/2007

Você é

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 11:14 pm

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra.

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora.

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda.

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima.

Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia.

Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.

Martha Medeiros – 19/03/2001

Caça

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 6:31 pm

Por que é importante ler? Pergunta recorrente em qualquer encontro de escritores com estudantes. E a gente acaba desfiando um rosário de respostas prontas, um blá blá blá repetitivo, apesar de necessário. Mas hoje vou dar um exemplo prático. Estava lendo uma revista – nem era um livro – quando me deparei com uma entrevista feita com o chef Philippe Legendre, estrela da gastronomia francesa de quem nunca provei um ovo frito. Ignorante sobre quem era o cara, li. Lá pelas tantas, o repórter: “É verdade que o senhor adora caçar?” O chef: “Eu caço o silêncio. Atiro no barulho.”

Bum!

Perdizes, faisões, coelhos, sei lá o quê o tal homem caça todo final de semana – e nem me interessa. O importante foi o impacto causado por aquelas duas frasezinhas curtas que pareciam um poema e que empurraram meu pensamento para além daquelas páginas, me puseram a pensar sobre minhas próprias perseguições. Caço o silêncio. Atiro no barulho. Eu idem, monsieur.

Eu caço o sossego. Atiro na tevê.

Eu caço afeto. Atiro em gente rude.

Eu caço liberdade. Atiro na patrulha.

Eu caço amigos. Atiro em fantasmas.

Eu caço o amanhã. Atiro no ontem.

Eu caço prazeres. Atiro no tédio.

Eu caço o sono. Atiro no sol.

E quando caço o sol, atiro em relógios. Acho que é isto que a leitura faz. Nos solta na floresta com uma arma na mão. Nos dá munição para atirar em tudo o que nos distrai de nós mesmos, no que nos desconcentra. O livro não permite que fiquemos sem nos escutar. A leitura faz eu mirar em mim e acertar no que eu nem sabia que também sentia e pensava. E, por outro lado, me ajuda a matar tudo o que pode haver em mim de limitante: preconceitos, idéias fixas, hipocrisias, solenidades, dores cultuadas.

Lendo, eu caço a mim e atiro em mim.

Martha Medeiros – 14/06/2004

Percepção de solidão

Arquivado em: Martha Medeiros — Daniela @ 6:28 pm

Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se na última fila. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, outra mulher entra na mesma sala e se acomoda na quinta fila, sozinha também. O filme começa.

Charada: qual das duas está mais sozinha?

Só uma delas está realmente sozinha: a que não tem um amor, a que não está com a vida preenchida de afetos. Já a outra foi ao cinema sozinha, mas não está só, mesmo numa situação idêntica a da outra mulher. Ela tem uma família, ela tem alguém, ela tem um álibi.

Muitas mulheres já viveram isso – e homens também. Você viaja sozinha, almoça sozinha em restaurantes, mas não se sente só porque é apenas uma contingência do momento – há alguém a sua espera em casa. Esta retaguarda alivia a sensação de solidão. Você está sozinha, não é sozinha.

Então de repente você perde seu amor e sua sensação de solidão muda completamente. Você pode continuar fazendo tudo o que fazia antes – sozinha – mas agora a solidão pesará como nunca pesou. Agora ela não é mais uma opção, é um fardo.

Isso não é nenhuma raridade, acontece às pencas. Nossa percepção de solidão infelizmente ainda depende do nosso status social. Se você tem alguém, você encara a vida sem preconceitos, você expõe-se sem se preocupar com o que pensam os outros, você lida com sua solidão com maturidade e bom humor. No entanto, se você carrega o estigma de solitária, sua solidão triplicará de tamanho, ela não será algo fácil de levar, como uma bolsa. Ela será uma cruz de chumbo. É como se todos pudessem enxergar as ausências que você carrega, como se todos apontassem em sua direção: ela está sozinha no cinema por falta de companhia! Por que ninguém aponta para a outra, que está igualmente sozinha?

Porque ninguém está, de fato, apontando para nenhuma das duas. Quem aponta somos nós mesmos, para nosso próprio umbigo. Somos nós que nos cobramos, somos nós que nos julgamos. Ninguém está sozinho quando curte a própria companhia, porém somos reféns das convenções, e quando estamos sós, nossa solidão parece piscar uma luz vermelha chamando a atenção de todos. Relaxe. A solidão é invisível. Só é percebida por dentro.

Martha Medeiros -21/11/2004

Arquivado em: Shakespeare — Daniela @ 6:21 pm

Não te amo com os olhos que descobrem em ti mil falhas, mas com o meu coração, que ama o que eles desprezam e que apesar do que vê, adora de apaixonar.

Shakespeare

Arquivado em: Clarice Lispector, Textos — Daniela @ 6:20 pm

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector

Soneto da Fidelidade

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 6:15 pm

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. 
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.  

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama 
 
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes

Soneto da Separação

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 6:14 pm

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
 
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
 
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

O Haver

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes, Vídeos — Daniela @ 6:11 pm

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido… 
 
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história… 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade. 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje. 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada… 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes

Ausência

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 6:04 pm

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida.
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes

Soneto da Inspiração

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 6:03 pm

Não te amo como uma criança, nem
como um homem e nem como um mendigo,
amo-te como se ama todo o bem
que o grande mal da vida traz consigo. 

Não é nem pela calma que me vem
de amar, nem pela glória do perigo
que me vem de te amar, que te amo;
digo antes que por te amar não sou ninguém.

 Amo-te pelo que és, pequena e doce
pela infinita inércia que me trouxe
a culpa de te amar – soubesse eu ver

através tua carne defendida
que sou triste demais para esta vida
e que és pura demais para sofrer.

Vinícius de Moraes

Allegro

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:59 pm

Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra
Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras
E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida
E as sombras de casam 
Nos raios noturnos
Da lua perdida.

Vinícius de Moraes

Poética I

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:55 pm

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

Eu não existo sem você

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:52 pm

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você

Vinícius de Moraes

Soneto do Amor Maior

Arquivado em: Poesia, Vinícius de Moraes — Daniela @ 5:52 pm

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Vinícius de Moraes

O Tempo

Arquivado em: Mario Quintana, Poesia — Daniela @ 5:50 pm

O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem
nós, para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como
um velho paralítico a tocar a campanhinha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de
rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho…Mas que raiva dá no Velho quando
encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua
cadeira de rodas!
Porque elas, simplesmente, o ignoram…

Mario Quintana

Indivisíveis

Arquivado em: Mario Quintana, Poesia — Daniela @ 5:49 pm

O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças…
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal – ou celestial – inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida…

Mário Quintana

Quem ama inventa

Arquivado em: Mario Quintana, Poesia — Daniela @ 5:47 pm

Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…

E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições…

Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…

Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!

Mário Quintana

Um dia acordarás

Arquivado em: Mario Quintana, Poesia — Daniela @ 5:44 pm

Um dia acordarás num quarto novo
sem saber como foste para lá
e as vestes que acharás ao pé do leito
de tão estranhas te farão pasmar,

A janela abrirás, devagarinho:
Fará nevoeiro e tu nada verás…
Hás de tocar, a medo, a campainha
e, silenciosa, a porta se abrirá.

E um ser, que nunca viste, em um sorriso
triste, te abraçará com seu maior carinho
e há de dizer-te para teu assombro:

- Não te assustes de mim, que sofro a tanto!
Quero chorar – apenas – no teu ombro
e devorar teus olhos, meu amor…

Mario Quintana

Verdade

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 5:41 pm

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

Boca

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 5:39 pm

Boca: nunca te beijarei.

Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.

Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.

Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.

Carlos Drummond de Andrade

Acordar, viver

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 5:37 pm

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

Carlos Drummond de Andrade

As sem-razões do amos

Arquivado em: Drummond, Poesia — Daniela @ 5:36 pm

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

“Benedicite”

Arquivado em: Olavo Bilac, Poesia — Daniela @ 5:34 pm

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano…

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Olavo Bilac

Ao coração que sofre

Arquivado em: Olavo Bilac, Poesia — Daniela @ 5:32 pm

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Olavo Bilac

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